Alfredo Schurig – 90 anos da Fazendinha – parte 1

Especiais - 20/07/2018


As pessoas que conheceram pessoalmente Alfredo Schurig, um homem de cabelos claros, olhar firme e tranqüilo, juram que aparentemente ele não tinha a menor propensão ou disponibilidade para dirigir qualquer clube de futebol.
Ele estava longe de ser o tipo que em geral se imagina capaz de tomar nas mãos uma agremiação esportiva e brigar com ela, e por ela, com unhas e dentes, enfrentando adversários e muitas vezes tendo de topar discussões com os próprios associados do clube.

Alfredo Schurig era um cidadão pacato e bem-humorado, que pouco entendia de futebol. Seu nome era de origem alemã. Também o bom humor de Alfredo tinha sotaque germânico, porque o pai de Alfredo era de um temperamento boêmio: ganhava o sustento da família tocando piano durante a noite, em bares onde se bebia chope à vontade. Esses bares eram frequentados especialmente pelo pessoal da colônia alemã em São Paulo, mas não unicamente por alemães.

Enquanto o sr. Schurig, pai do Alfredo, mandava ver no piano polcas e mazurcas, uma atrás da outra, a clientela dos bares onde o sr. Schurig trabalhava ia bebendo chope, cerveja, steinhãger e tudo o mais. As noites eram alegres. Ali pelas tantas, era comum um ou outro freguês do bar ficar meio alto, sair caminhando por entre as mesinhas, pedindo licença pra um, pedindo licença pra outro, e se aproximar do piano, apoiar os cotovelos no instrumento — geralmente piano de cauda — e pedir: “Schurig amigão, toca Danúbio Azul”. O Danúbio Azul, como qualquer pianista de choperia sabe, é uma bonita valsa composta em 1867 por um ex-bancário vienense chamado Johann Strauss, que estudava violino escondido do pai e acabou compondo em sua vida mais de 150 valsas. O Danúbio Azul é uma das mais bonitas delas.

Rara era a noite em que o sr. Schurig não era solicitado a atender a um pedido de Danúbio Azul, que ele tocava de ouvido, de olhos fechados, sem precisar da partitura musical. Mas o sr. Schurig não se queixava da vida que levava. Ao contrário, tinha espírito jovial, gostava da noite, do piano, das valsas vienenses, e também tomava seus chopinhos.

Era um pianista feliz.

Mas, no íntimo de seu coração, pedia aos céus que seus dois filhos, Arno e Alfredo, não precisassem ganhar a vida tocando Danúbio Azulão nos pianos das choperias da cidade. Foi atendido em seu pedido. Tanto Alfredo quanto Arno cresceram pessoas alegres e gentis, muito educadas. E com uma sorte incrível. Tanta sorte, que certo dia o rapaz Alfredo comprou um bilhete inteiro da Loteria e tirou a sorte grande: ganhou 20 contos de réis — numa época em que se o sujeito fosse “vagai” poderia encostar o corpo na rede e com esse dinheiro ficar muitos anos de papo pro ar.

Acontece que Alfredo Schurig era um moço com índole para o trabalho. Aplicou o dinheiro numa fábrica de parafusos e o dinheiro da Loteria principiou a dar cria que nem coelho. Ficou riquérrimo. Schurig tinha tino administrativo, boa visão para negócios, era honesto e competente. Tinha de prosperar, como prosperou.
No entanto, continuava não entendendo nada de futebol. Ia ao campo de vez em quando, gostava de ver boas partidas, frequentara o Velódromo, fora ver o Corinthian Football Club inglês jogar em São Paulo, mas não é dizer que fosse um expert no nobre esporte bretão. Era um curioso, só isso. Nem o Germânia, que era o clube da colônia alemã, o entusiasmava. Acompanhava o futebol mais por ouvir dizer. E como também vez por outra, como quase todo mundo, dava umas voltinhas pelos campos da várzea, ficou sabendo que uns rapazes do Bom Retiro tinham fundado um clube chamado Sport Club Corinthians Paulista.

Mas Alfredo Schurig não se meteu no assunto. Não se inscreveu como sócio, não ajudou a fundar o clube. Apenas simpatizou com o esforço daqueles “rapazinhos operários” que pensavam em concorrer um dia com os clubes grandes da cidade…



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